COMO SE TORNAR UM CULTURISTAS – EPISÓDIO VII

Postado por: Miguel Chain em  07/05/2009 |

COMO SE TORNAR UM CULTURISTA

 

 

 

Através dos anos que passei no ambiente das academias eu presenciei muita coisa. Conheci muitas pessoas que queriam crescer, ficar enormes. Fiz muitos amigos, ouvi muita coisa sobre treinamento e nutrição. Muita coisa certa e muita coisa errada.

Pretendo, com essa série de artigos, passar um pouco de minha experiência e trazer um pouco de humor para os leitores. Nosso desafio na academia pode ser muito duro ás vezes. Ficar grande e conquistar um bom físico requer muito sacrifício, dedicação, mas apesar de tudo, requer muito conhecimento.

A história toda de Leo, um menino de 20 anos que sonha em pisar em um palco num campeonato de culturismo, se desenrola na academia onde treino. A maioria dos personagens é real, exceto Leo.

Queria deixar muito claro aqui que os fatos e as situações descritas nos próximos meses são fictícios e minha intenção é ilustrar a vida de um culturista aspirante à competição de forma bem caricata e engraçada. Com certeza muitos dos leitores poderão aprender alguma coisa com os textos, mas tenham em mente que a maioria dos fatos descritos é caricata e não devem ser seguidos á risca. Se você quer se tornar um culturista sério, eu aconselho que leia o blog e os artigos do site Diário do Culturismo ou que procure sites com bom material como o Treino Pesado ou WaldemarGuimaraes.com.br

Gostaria de agradecer o grande número de e-mails que recebi a respeito da saga Leo. A aprovação do público foi instantânea e provavelmente a série terá a duração prevista inicialmente de dez episódios. Algumas pessoas que treinam na mesma academia que eu, vieram me perguntar se o Leo realmente existia e quem ele era. Infelizmente o Leo não existe, é fruto de uma mistura de várias pessoas que conheci e fatos que ouvi ao longo de minha vida na academia. O nome da personagem é Leonel, por isso o apelido Leo. A grande maioria dos outros personagens é real, mas seus nomes foram mudados e nem todos os seus atos correspondem as suas ações de verdade. Nenhum dos fatos narrados aqui ocorreu de verdade. Gostaria de reforçar que esta é uma história fictícia e que não deve ser considerada como fonte de informações para nenhum tipo de pessoa.

 

 

Episódio VII – A Guerra Vai Começar

 

 

Depois do incidente com a última namorada do Leo, a vida foi seguindo para mim e meu pupilo. A confiança de Leo em si mesmo aumentava a cada semana. Isso fazia com que eu confiasse muito mais no sucesso dele do antes. Mas ainda existia uma coisa que me atormentava. O excesso de confiança de Leo dava um ar de arrogância ao menino as vezes. É claro que isso é muito comum entre as pessoas, especialmente entre culturistas. É muito complicado diferenciar arrogância de auto-confiança excessiva.

Nem sempre as pessoas interpretam de maneira correta o que queremos expressar. Dois grandes exemplos no culturismo desse binômio arrogância/auto-confiança excessiva são Arnold Schwarzenegger e Gustava Badell. Vejam estes caras e reparem nas semelhanças de seus atos. Arnold veio de um país na europa oriental, começou a vencer, ele sabia que venceria e estava disposto a fazer qualquer coisa em nome do sucesso. Ele sempre deixou claro em suas declarações que ninguém ficaria entre ele e os títulos, entre ele e o sucesso. Arnold era conhecido por sacanear os adversários antes das competições, por dominar psicologicamente até mesmo seus amigos mais próximos. Arnold nunca teve pudor em dizer que manipulava Franco Columbo ( um de seus melhores amigos) , ele enganou Frank Zane ( seu melhor amigo, uma das pessoas que o ajudou desde quando ele havia chegado da Europa) durante meses na preparação para o Olympia de 80. Neste ano Zane iria defender seu título, Arnold viajou com ele até a Austrália, local onde seria realizado o Campeonato naquele ano. Na última hora, Arnold apareceu de sunga atrás do palco e surpreendeu Zane, dizendo que iria competir. Adivinhem quem ganhou? Podemos notar que o Arnold foi o símbolo da arrogância, da falta de ética, da falta de companheirismo. Mas todos sempre dizem até hoje que Arnold era um determinado, uma pessoa que lutou sempre para vencer, ele era confiante em si mesmo.

O Outro exemplo é Gustava Badell, Badell veio do Caribe, ficou anos sem ganhar nada. De repente ele começou a ganhar títulos, venceu Ronnie Coleman no tão criticado posing round. Ele dizia que sempre treinava duro e por isso já esperava que iria ganhar, era bem confiante, nunca pisou ou enganou ninguém para conseguir algo em sua carreira, no entanto ele sempre tido como um cara extremamente arrogante.

Tendo isso em mente eu não conseguia perceber o que estava acontecendo com o Leo. Ele estava mais confiante? Isso faria dele uma pessoa arrogante e inescrupulosa? Não sei. De uns tempos para cá ele age de maneira um pouco estranha. Parece que não dá tanta importância para o que tenho a falar. Contei esta história do Arnold e do Badell para ele. Ele me agradeceu e disse que sempre seremos amigos e que sempre ouvirá o que tenho a dizer. “Mesmo que eu vire Mr Olympia um dia, nunca vou esquecer que sou seu amigo!” Essas eram as palavras de nosso herói.

Era claro que ele havia melhorado muito nos últimos meses, nem se parece com aquele antigo Leo que pediu minha ajuda naquela tarde fria. Os resultados eram impressionantes, seu percentual de gordura havia baixado muito, a massa muscular havia aumentado, os pontos fracos, principalmente pernas estavam melhorando. Mas era claro que ainda faltava muito para nosso pupilo poder lutar de igual para igual com os melhores do Brasil em sua categoria. Ele não parecia pensar assim.

“Miguel,andei vendo as fotos do Campeonato Brasileiro e percebi que os caras que competem lá na categoria Junior não são tão bons assim. Se eu conseguir diminuir mais minha BF, eu …” Imediatamente eu o interrompi.

“Espera, espera, espera! Diminuir o que?” Perguntei muito bravo.

“Dimimuir minha BF. BF é gordura corporal Miguel, não é?”

“Leo, você mora no Brasil, use termos em português por favor. BF quer dizer Body Fat, gordura corporal. Mas o termo em português é Percentual de Gordura. Não é tão bonito de se falar, nem tão fácil de se escrever, mas é assim que se fala aqui no Brasil. Por favor não cometa esse erro.” Não gosto muito e não acho correto que usemos termos em inglês, quando temos palavras para expressa-los em português.”

“Mas Miguel, olha só, vamos ao que interessa. Em oito semanas temos um campeonato lá em São Paulo. Eles terão categoria Junior. Se formos comparar o nível dos competidores do brasileiro, eu tenho boas chances de conseguir minha primeira vitória em campeonatos.”

Claro que ele estava iludido. Apesar de todas as mudanças apresentadas nesses meses, ele ainda precisava de um ano ou dois para chegar a um nível competitivo. Ele havia visto os competidores por fotos. É muito difícil sair bem em fotos. Mesmo os IFBB Pro podem parecer pequenos dependendo do ângulo e iluminação das fotos. Tentei explicar ao meu pupilo mas ele parecia não querer entender.

“Mas Miguel, qual o problema se eu entrar nesse campeonato? De qualquer forma a minha dieta estava programada para terminar uma semana antes do campeonato. É só a gente continuar por mais alguns dias.”

Não queria ser duro demais com o Leo, mas precisava explicar que ainda não era hora de competir. Se ele pelo menos fosse competir sabendo que não iria vencer, que a competição seria somente para ganhar experiência, acho até que seria válido. Mas não. Ele estava totalmente convencido que poderia ficar entre os três primeiros colocados.

Conversamos bastante nos dias que se seguiram, expliquei a ele a dificuldade de uma competição e que ele deveria ir apenas para sentir como é. Não deveria ir esperando uma vitória.

“Mas então você não confia em mim?”

“Claro que não é isso. Confio muito em você, mas tudo tem a hora certa e temos que ser realistas. Você ainda não tem as ferramentas necessárias para vencer um campeonato.”

Precisamos ser sinceros com as pessoas. Não estava tentando desencorajar o Leo, só queria mostrar a ele a realidade. Eu tenho experiência nesse ramo de competições e atletas. Sei quando um atleta tem chances ou não em um campeonato.

Depois de muita conversa parece que convenci nosso herói a pensar neste campeonato como apenas uma preparação, uma experiência para os que virão no futuro. Vamos tentar prepara-lo da melhor forma possível. Precisaríamos melhorar mais ainda algumas coisas como suas pernas, seu abdome. Mas o menino estava decidido mesmo a competir e era isso que ele iria fazer.

“Miguel, o que vamos precisar mudar em meus treinos e dieta para que fique pronto a tempo para o campeonato?”

“Você ainda tem muita gordura para perder. Temos só oito semanas e você precisaria de umas dez ou onze semanas para queimar toda essa gordura. Vamos ter que acelerar seu aeróbio e tentar diminuir um pouco suas calorias.”

“Você está louco Miguel? Aumentar o aeróbio e diminuir as calorias? Vou catabolizar desse jeito. Deve haver outra maneira.”

Nesse caso não havia outra maneira. Ele iria catabolizar um pouco? Iria com certeza. Isso é o certo? Não. Alguém que pensa em competir deveria fazer isso. Não. Mas o Leo era teimoso e não iria sossegar enquanto não me convencesse a deixa-lo competir. Outra pergunta é: O treinador deve ceder aos desejos de seu atleta como eu cedi? Provavelmente não, mas essa será uma parte importante no processo de aprendizado de Leo. Ele é muito novo ainda e talvez precise tomar umas pancadas no campeonato para colocar a cabeça no lugar e se dedicar mais ainda para o próximo ano.

“Leo, A preparação se tornará muito mais penosa a partir de agora. Nada poderá passar, nenhuma refeição poderá ser perdida, nenhum treino mal-feito. Aeróbio sempre, nem pense em pular esta parte. Teremos que ser muito mais sérios do que já éramos. Você está pronto para isso?” A pergunta foi incisiva e a expressão no rosto de Leo não me animou muito, ele fez uma cara de espanto e dúvida.

“Eu topo Miguel! Estou pronto! Que venha a preparação. Esperei por isso a vida toda.” Agora a expressão em seu rosto era de raiva, de confiança. Agora sim estamos prontos.

O Ricardo, dono da academia estava ao nosso lado e ouviu toda a conversa. Ele é um cara muito ponderado e não abriu a boca durante toda a conversa. Quando terminamos ele perguntou a mim e ao Leo se estávamos prontos para o Campeonato.

“Miguel e Leo, vocês têm pouco tempo, menos do que o necessário. Essa preparação será uma verdadeira Guerra.” Ele disse isso com o dedo em riste e com um tom austero na voz. Olhei para o Leo nessa hora e disse:

“Então a Guerra vai começar!”

 

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