Como será o seu fisico dentro de vinte anos?



Por Miguel Chain

Comecei a treinar em Fevereiro de 1995. Lá se vão quase vinte anos. Apesar de não ter hoje o físico de um competidor do Mr Olympia, tenho muito orgulho do que atingi. Quando comecei tinha 58kgs e 28 cm de braço. Hoje me mantenho com 95kgs relativamente seco(com veias nos braços e pernas e abdominais aparentes) e com 44cm de braço. Já cheguei a pesar 102kgs, mas sinceramente eu estava redondo e com muita gordura.

Sempre segui o caminho devagar e sempre. Sempre me cuidei. Ao longo desses anos, treinei e convivi ao lado de muitos caras que queriam atingir metas inatingíveis para eles.

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Não me entendam mal, precisamos ser ambiciosos e querer sempre mais. Precisamos querer nos superar sempre. Mas é preciso ter os pés no chão e ser realistas. Eu adoraria pesar 115kgs seco e ter 50 cm de braço. Mas meu corpo não foi desenhado para isso. E se eu fosse tentar chegar nesses números, estaria fazendo coisas em termos de treinamento, nutrição e “suplementação” que só iriam colocar em risco meu bem estar e saúde no futuro.

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Voltando aos caras que queriam chegar rápido em lugares onde supostamente eles não poderiam chegar – grande parte deles hoje já não treina com tanta disposição, já não tem a paixão pelo esporte pois se frustraram por não terem conseguido aqueles resultados inatingíveis propostos por eles mesmos.
Outros convivem com tantas lesões que estão praticamente incapacitados de treinar com o mínimo de intensidade. Sem falar em alguns que morreram por problemas de saúde causados pelo abuso de esteroides em uma época onde não havia nenhuma informação.

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Quando somos mais jovens e relativamente novos no esporte, treinamos com muito entusiasmo e temos um pouco de dificuldade em enxergar certas consequências que podem vir nos anos seguintes. Queremos ficar grandes logo, movidos pela motivação que nos é dada pelos ídolos do Bodybuilding. Quem nunca assistiu um vídeo do Branch Warren ou do Coleman antes de ir treinar costas ou peito? Ou qualquer outro músculo?

Treinar de forma inteligente ou treinar pesado?

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Mas aí entramos em um dilema – sempre ouvimos e lemos coisas do tipo – “Treine de forma inteligente.”
Por outro lado, damos play nos vídeos do Coleman e Branch no youtube e nos deparamos com os treinos mais insanos que um ser humano (será que eles são humanos?) poderia fazer.

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Ao assistir seus treinos, eu fico totalmente pilhado, motivado, ligado e pronto para levantar uma tonelada na academia. Mas ao mesmo tempo, fico imaginando como que não sai uma vértebra voando ou uma patela arrebentando.
Nunca deveríamos deixar de treinar pesado. Mas precisamos começar a pensar como será nossa vida dentro de uns anos. Eu treino há quase 20 anos. Tenho pequenas dores aqui e ali, mas nunca tive uma grande lesão como um músculo rompido ou hérnia de disco. E pretendo continuar assim por mais vinte anos. Não pretendo parar de treinar pesado tão cedo.

A inspiração eterna – Bodybuilders

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Por isso é preciso que eu continue treinando de forma inteligente. A experiência traz sabedoria e hoje eu dou muito mais atenção e importância a um bom aquecimento, flexibilidade muscular e mobilidade articular etc. Treinar de forma inteligente, não significa treinar leve. É possível fazer as duas coisas e obter resultados expressivos com isso.27df

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Os bodybuilders Pro sempre serão minha fonte de inspiração e motivação. Mas também sempre serão minha fonte de informação.
E uma coisa que as revistas e os perfis pessoais dos atletas nas redes sociais não falam é sobre as lesões, ou como sobre os caras de 40, 45 anos vivem hoje.
Por mais legal e motivante que o estilo de Branch Warren seja, ele coleciona lesões e rupturas musculares – dois bíceps, tríceps, quadríceps.

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Ronnie Coleman tem diversas hérnias de disco e recentemente foi obrigado a fazer duas cirurgias para fundir diversas vértebras lesionadas em seu pescoço e coluna torácica. Teve pinçamentos nervosos que fizeram músculos atrofiarem.

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Dorian Yates sofreu várias rupturas musculares e hoje ele mesmo diz que sofre de artrose severa em seus ombros e raramente consegue fazer algum movimento de pressão, como supino por exemplo. Ele mesmo admitiu, pouco tempo atrás, em sua coluna na MD que se pudesse voltar no tempo, não treinaria tão pesado perto das competições e não usaria a máquina Smith para fazer desenvolvimento de ombros.

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Não me levem a mal. Eu sou fã desses caras, e são deles os vídeos que mais me motivam. Mas eu procuro usar a experiência deles para poder tirar mais proveito nos meus treinos.

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Por outro lado, temos caras como Jay, Levrone, Victor Martinez, Lee Priest que sempre usaram cargas relativamente menores e um pouco mais de volume – que podemos dizer ser uma forma relativamente mais segura de se treinar) mas que também tiveram lesões musculares sérias, porém, com um grau de gravidade bem menor.

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Depoimento das estrelas – Levrone, Ray e Wheeler dizem se mudariam algo :

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As vezes, evitar lesões pode ser impossível. Vivemos e treinamos para nos superar, levamos nossos corpos ao limite. Muitas vezes, passamos deles. Mas podemos usar toda a informação disponível hoje para não cometer os mesmos erros dos outros.
Outro dia eu estava lendo a MD e havia uma matéria com Shawn Ray, Kevin Levrone e Flex Wheeler que viria a calhar para fechar esse texto. Na matéria lhes foi perguntado:

“Você teria feito algo diferente?”

Shawn Ray

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Shawn Ray, um dos ícones do Bodybuilding Mundial, atleta que teve uma longevidade e regularidade incríveis no esporte, disse que não mudaria nada.

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Sempre admirei Ray por se manter no topo durante vários anos, mostrando um físico impecável. Além disso, ele está muito bem de saúde e nunca teve uma lesão séria. É bem verdade que ele nem deve treinar muito hoje em dia, mas seus conselhos certamente são valiosos.shawnrayflexwheeler

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Em suma, ele disse que – durante seus primeiros anos de treino, nos anos 80 – simplesmente seguia o que Franco Columbu, Franz Zane e outros da época faziam – proteína alta, carbo baixo, dias pesados com muita carga e reps baixas, misturados com dias moderados cargas menores, reps mai saltas, enfatizando poses e tentando espremer o músculo o máximo possível durante os exercícios.

Kevin Levrone

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O próximo foi Levrone, que também disse que não mudaria nada. Começando pela nutrição, ele comia basicamente peixe, arroz integral e brócolis. As vezes comia peru ou frango e quase nunca comia carne vermelha. Ele relata que hoje tem a saúde perfeita devido a isso.images

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Outro aspecto em sua dieta era o fato de Levrone comer bem pouco ao longo do ano. Ele parava de treinar e comer como um bodybuilder durante o offseason, ficando menor e mais leve. Seu peso de competição era cerca de 250 lbs (algo em torno de 115kgs) enquanto que seu peso em off era 100kgs.

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Ele treinava superpesado e comia como um bodybuilder cerca de 4-6 meses por ano. Segundo ele isso permitia que treinasse muito pesado com segurança, já que o castigo nas articulações não era constante.
Levrone disse que chegou a fazer 20 reps de agachamentos com 230kgs, desenvolvimento atrás da cabeça com 180 kgs e hoje ele não tem nenhuma “dessas dores articulares que os meus contemporâneos têm, e que os caras com 10-20 anos menos que eu também têm.”, como ele mesmo disse.

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Ele treinava pesado doze meses por ano até 1993, quando rompeu seu peitoral fazendo uma série de aquecimento em uma noite fria de inverno. Foram oito meses até sua recuperação completa; ele perdeu 14 kgs. Quando se recuperou, só havia 4 meses para o Olympia. Ele treinou duro e chegou em quinto lugar no Grande Show e venceu um GP na Europa logo após isso.
Nesse período ele percebeu que poderia descansar seu corpo por um tempo e voltar poucos meses antes do Olympia.
Tenham em mente que estamos falando de verdadeiras aberrações da natureza aqui, homens com um perfil genético único. Para a imensa maioria de nós essa estratégia não serviria, mas serve de exemplo para ilustrar como uma periodização mais bem planejada pode ser benéfica.

Flex Wheeler:

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O último e mais interessante depoimento do três foi Flex Wheeler. Ao contrário dos outros dois, ele se arrepende e confessa que faria as coisas de modo diferente.
A primeira coisa que ele mudaria seriam seus hábitos alimentares. Disse que iria tentar se manter mais leve ao longo do ano, sem tanta gordura extra armazenada.

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Mas ele faz questão de frisar que treinava muito pesado em off-season. E é verdade. Tenho um de seus vídeos, o “Mass Construction”, filmado 4 semanas após uma competição. Nesse vídeo ele faz um supino vertical articulado Hammer Strength com 100kgs cada lado, leg-press cheio de anilhas e mais dois caras em cima entre outras coisas interessantes.

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Ele treinava na Gold´s Venice com Chris Cormier e Rico McClinton. Dizem que eram treinos épicos.
Flex diz que só hoje percebe que sua estrutura óssea não permitia que grandes cargas fossem utilizadas com segurança. Ele disse que usar certas cargas tão elevadas não era seguro, muito menos necessário para ele – mas na época o que valia para ele os parceiros de treino era treinar o mais pesado possível.index2fr

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“Alguém com 78cm de coxa e 72 cm de cintura não deveria fazer agachamento com 270 kgs por exemplo. Mas eu fazia. Eu costumava fazer diversas repetições de supino inclinado com 180 kgs, supino inclinado com halteres de 80 kgs, desenvolvimento atrás da cabeça com 140kgs. Tudo isso veio me assombrar anos depois.”, relata Wheeler.

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Ele ainda diz que teve várias lesões ao longo dos anos – rupturas menores em peitorais e femorais, uma hérnia de disco operada e lesionada novamente anos depois, rompeu músculos do manguito rotador nos dois ombros e operou os dois joelhos.
Ele termina assim o depoimento: “Então, sim, eu teria treinado de forma mais inteligente e não tão pesado, por que os estragos causados anos atrás se tornaram um grande problema depois. Mas eu era um Pro Bodybuilder na época e fiz exatamente o que eu sentia que deveria fazer para me manter no topo.”

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Volto a dizer, não devemos usar possíveis lesões como desculpas para não treinar pesado o suficiente. Temos que nos superar e buscar nossas metas.
Mas esses depoimentos valem como reflexão… como estará nosso corpo dentro de 20 anos?

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Como será nosso depoimento no futuro? Em 2034, você irá olhar para trás com pesar e pensar que poderia ter treinado de forma mais segura e inteligente? Ou estará treinando bem, sem dores e lesões sérias, dando pau nos novatos quize ou vinte  anos mais jovens que você?




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Miguel Chain Jr

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