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Dopping no Atletismo do Brasil – 2009

Esta semana tivemos a notícia de que vários atletas brasileiros, seis para ser mais exato, foam pegos no exame anti-doping. Os atletas estavam na Alemanha já na fase final da preparação para o Mundial da IAAF que deverá ser realizado nas próximas semanas.

Em um primeiro momento os atletas se disseram inocentes e ficaram indignados. Depois, veio o fato mais estarrecedor – O técnico da seleção brasileira de atletsimo Jayme Netto Jr anunciou que ele havia dado as substâncias aos atletas. A substância encontrada em cinco dos atletas era o EPO.

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O EPO é utilizado para aumentar a produção de células sanguineas vermelhas. Com isso, o transporte de oxigênio é amplificado e a fadiga diminuída. Essa droga é utilizada principalmente por ciclistas e atletas praticantes de esportes de longa duração como maratona.  A EPO deveria ser admistrado com uma suplementação concomitante de ferro, matéria prima das hemaceas.

Os atletas, em sua maioria praticantes do velocismo, provas curtas e que exigem velocidade, podem de certa forma se beneficiar do EPO em sua fase de preparação e treinamentos.

O treinador Netto JR, professor da UNESP de Presidente Prudente, disse que foi orientado a utilizar a substancia em seus atletas por Pedro Balikian Jr, Coordenador do Departamento de Fisiologia do Exercício da Unesp.

Jayme Netto Jr, disse que Balikian orientou as injeções de EPO dizendo que era uma dosagem baixa demais para ser detectada no anti-doping. Mas o tiro saiu pela culatra. Segundo o treinador, os atletas não sabiam do que se tratava, e acreditavam ser um composto de aminoacidos.

Mais uma vez, a mesma história. Mais um escândalo. Por que eles querem. Óbvio que não são apenas os atletas brasileiros usuários de drogas para melhorar a performance. Essa equipe é a bola da vez. De tempos em tempos as comissões de anti doping conseguem, com seus arcaicos métodos, detectar alguns atletas desavisados ou que por algum motivo falharam em seus protocolos de doping.

Os esforços de Don Catlin – Diretor do laboratório de analizes da UCLA entre 1983 e 2007 – Terry Madden – Fundador da USADA, Agencia americana de Anti0Doping e Dick Pound – Chefe da WADA, Associação MUndial anti-doping e muitos outros que brigam contra o doping nos esportes tem sido praticamente em vão.

Homens como Dan Duchaine, Victor Conte, Patrick Arnold ( os dois últimos, pivôs do caso Balco, onde vários atletas americanos de ponta perderam suas medalhas – como Marion Jones ) sempre estiveram  à frente dos laboratórios anti doping de suas épocas. Nos dias de hoje, é certo que existem outros “gurus” ajudando os atletas a correrem mais rápido, saltarem mais alto e mais longe.

Dan Duchaine foi o homem que apresentou aos esportes drogas como insulina, clembuterol, DNP e GHB. Ele testava as substâncias emsi mesmo ou em algumas de suas muitas mulheres, além de atletas da Califórnia.

Victor Conte, dono dos Laboratórios Balco, começou como vendedor de vitaminas em uma clínica de medicina. Se uniu a Patrick Arnold e Bruce Kneller e criaram o BALCO. Lá foi desenvolvido um suplememto vitaminico muito utilizado e sem qualquer ligação com doping –  o ZMA. Lá também foram desenvolvidos alguns designer esteroides como o THG. Os “designer esteróides” são substancias anabólicas cujas características químicas nada têm a ver com a testosterona.

O exame anti-doping procura algumas substancias-chave. Como as substancias produzidas no BALCO não eram conhecidas, o exame não as procurava. Dessa forma, os atletas usuários nunca seriam pegos.

Certo dia, uma seringa cheia de liquido apareceu na sede da WADA. Até não se sabe quem a enviou. Mas a seringa continha THG. A partir daí, um teste para THG e análogos foi criado e os atletas foram caindo como moscas.

Para mim é claro que hoje existem outras substancias que se encaixam no rótulo “designer esteróides” e que são utilizados amplamente pelos atletas de alto nível.

As agências anti-doping só descobrirão tais substâncias por um acaso do destino. Existem também diversos métodos para mascarar os exames como diluir a urina, utlizar substancias que ficam pouquíssimo tempo no organismo e não deixam rastros etc.

Provavelmente as federações e agencias anti doping nunca vencerão essa luta. E mesmo se vencessem, elas perderiam. Imaginem os Jogos Olímpicos apenas com atletas “limpos”. Nenhum recorde seria batido, todas as marcas seriam piores do que as anteriores. Por algumas décadas, a idéia de superação seria esquecida à força, pois não haveria condições dos atletas superarem os recordes atuais. Certamente o interesse do público diminuiria, pois queremos sempre ver a superação.

Os métodos de doping sempre estarão um ou dois passos à frente do anti-doping. É praticamente impossível prever ou imaginar o que um cientista maluco está preparando em seu laboratório em algum porão da Europa ou Ásia.

Provavelmente o final do doping seria ruim de uma maneira geral para o esporte, para os patrocinadores. Para aqueles que lêem esse texto indignados com os atletas que usam substancias sintéticas para fazer seu trabalho melhor – isso, os atletas profissionais têm o esporte como profissão – afirmo:

Vivemos hoje em uma sociedade movida à substancias sintéticas. Tomamos remédios para dormir, para ficarmos acordados, para ficarmos menos ansiosos, para ficar sem dor. Meninas de 15 anos tomam hormônios ( tão prejudiciais quanto os esteróides usados pelos atletas ) para fazer sexo recreacional e não engravidar. Usamos álcool de maneira livre em festas e reuniões sociais. Estudantes universitários consomem elevadas quantidades de estimulantes para ficarem acordados e conseguirem suportar a carga horária exaustiva.

Quando pegamos um desses velocistas que foram pegos com EPO e um estudante universitário que dorme apenas 3 ou 4 horas por noite e usa estimulantes para ficar acordado – podemos dizer que são casos indênticos – os dois estão usando uma substância sintética para melhorar a performance em sua profissão. A diferença é que para a sociedade, para os pais, ainda é mais fácil admitir e aceitar que sua filha de 15 anos tome anti-concepcionais para fazer sexo recreativo seguro ( em termos ) do que aceitar que seu filho use substancias parecidas para ficar mais forte, ou mais rápido.

Se pensarmos nos fatores éticos do esporte, também ficaremos surpresos. Se todo mundo usa, isso pode ser considerado vantagem ilícita? Hojem em dia, as drogas para melhorar a performance são relativamente baratas. Por isso praticamente todos os atletas têm condições de usar. O mesmo não podemos dizer da roupa de tubarão usada na natação. Durante algum tempo, aqueles que não tinham condições de comprá-las, nem precisavam se preocupar em ir às competições. As tais roupas melhoravam muito o tempo dos nadadores. Mas eram caríssimas e sua distribuição limitada. Quem as vestia, levava grande vantagem. Não me lembro de ninguém fazer algum protesto sobre a ética das roupas de tubarão. O mesmo podemos dizer para centros de treinamento. Durante anos, os melhores nadadores brasileiros eram aqueles que podiam viver e treinar nos EUA.

Não gostaria de transformar esse texto em uma forma de apologia ao uso de drogas. Pelo contrário. Existe um documentário americano chamado “Bigger, Stronger and Faster”. O diretor e produtor do filme , Chris Bell, começa com a imagem de Hulk Hogan. Ele era fã de Hogan em sua infância. Quando Hogan derrotou o Sheik ( Em uma luta onde era ilustrada e caricata a guerra entre a direita e a esquerda, o ocidente contra  o oriente nos anos 80). Ele cresceu vendo Hogan derrotar seus oponentes. Ele cresceu aprendendo que nos esportes o importante é vencer. Vencer a qualquer custo.

Quando ele descobriu que as lutas-livres de Hulk Hogan eram todas armadas, e que na verdade Hogan também usava esteróides; ele teve um choque. Tudo o que ele cresceu acreditando era mentira. A única coisa que restava? Vencer a qualquer custo.

Com isso, Bell e seus dois irmãos, que já praticavam esportes inclusive luta livre, começaram a usar os esteróides.A imprensa e os atletas podem influenciar as crianças como pudemos ver no documetário. Então não deveríamos ligar a palavra esteróides aos atletas. Mas o que dizer de um astro, um fenômeno do futebol, ídolo de todos, que aparece na TV em horário nobre promovendo uma marca de cerveja? Boa influência aos jovens? Ah esqueci, álcool, uma cervejinha  são inofensivos.

Segundo a OMS e ONU, mais de 1 milhão de pessoas morrem por ano no trânsito em decorrência do uso de álcool. Além disso o álcool causa 4% das mortes no mundo devido a problemas de saúde. E nem falamos do fumo.

Então não acho que a imprensa influenciar garotos adolescentes a usar qualquer tipo de substancia seja um ato honroso. O uso de drogas como hormônios ( anticoncepcionais para as menininhas ), álcool, fumo, remédios para ansiedade e dor é amplo e aceito pela sociedade. Não podemos justificar um erro, com outro erro. Mas onde está o erro? Quantos atletas morrem por ano? Um milhão? Longe disso. Pessoas normais não deveriam usar esteróides ou outras drogas. Mas por que os atletas não deveriam?